perìgeion

un atto di poesia

Il libro delle somiglianze, Ana Martins Marques

dama

traduzione di Massimiliano Damaggio

 

ANA MARTINS MARQUES

da

O LIVRO DAS SEMELHANÇAS

IL LIBRO DELLE SOMIGLIANZE

Companhia das Letras, 2015

 

[1]

LIVRO

LIBRO

 

 

Capa

Um biombo

entre o mundo

e o livro

 

Copertina

Un paravento

fra il mondo

e il libro

*

Nome do autor

Impresso

como parece estranho

o mesmo nome

com que te chamam

 

Nome dell’autore

Stampato

come sembra strano

lo stesso nome

con cui ti chiamano

*

Dedicatória

Ainda que não te fossem dedicadas

todas as palavras nos livros

pareciam escritas para você

 

Dedica

Anche non ti fossero dedicate

tutte le parole nei libri

per te sembrano scritte

*

Primeiro poema

O primeiro verso é o mais difícil

o leitor está à porta

não sabe ainda se entra

ou só espia

se se lança ao livro

ou finalmente encara

o dia

o dia: contas a pagar

correspondência atrasada

congestionamentos

xícaras sujas

aqui ao menos não encontrarás,

leitor,

xícaras sujas

 

Prima poesia

Il primo verso è il più difficile

il lettore è alla porta

ancora non sa se entrare

o solo sbirciare

se avventurarsi nel libro

o infine affrontare

il giorno

il giorno: conti da pagare

corrispondenza in ritardo

congestionamenti

tazze sporche

qui almeno non troverai,

lettore,

le tazze sporche

*

Acidente

Escrevi este poema no último dia

depois disso não nos vimos mais

a princípio trocamos telefonemas

em que você sempre parecia estar prestes a perder o trem

enquanto eu sempre parecia ter acabado de perdê-lo

escrevi este poema depois do primeiro telefonema

você falava sobre vistos e repartições

e sobre como para conseguir um documento sempre é necessário um outro

que no entanto só se pode obter de posse daquele

eu falava sobre as noites perdidas na companhia de alguém

que nunca era você

depois aos poucos você deixou de ligar

escrevi este poema no segundo domingo

em que você de novo não telefonou

ao redor do poema como em volta de um acidente

juntou-se muita gente

para ver o que era

 

Incidente

Ho scritto questa poesia l’ultimo giorno

dopo non ci siamo visti più

all’inizio ci siamo scambiati telefonate

e sembrava sempre che tu stessi per perdere il treno

mentre sembrava sempre che io l’avessi appena perso

ho scritto questa poesia dopo la prima telefonata

parlavi di visti e di uffici

e di come per avere un documento ne è sempre necessario un altro

che si può avere solo se si ha già quell’altro

io parlavo di notti perdute in compagnia di qualcuno

che non eri mai tu

poi poco a poco hai smesso di chiamare

ho scritto questa poesia la seconda domenica

quando tu di nuovo non hai telefonato

intorno alla poesia come intorno a un incidente

s’era raccolta molta gente

per vedere che era

*

Tradução

Este poema

em outra língua

seria outro poema

um relógio atrasado

que marca a hora certa

de algum outro lugar

uma criança que inventa

uma língua só para falar

com outra criança

uma casa de montanha

reconstruída sobre a praia

corroída pouco a pouco pela presença do mar

o importante é que

num determinado ponto

os poemas fiquem emparelhados

como em certos problemas de física

de velhos livros escolares

 

Traduzione

Questa poesia

in un’altra lingua

sarebbe un’altra poesia

un orologio indietro

che segna l’ora giusta

di qualche altro luogo

un bambino che inventa

una lingua solo per parlare

con un altro bambino

una casa di montagna

ricostruita sulla spiaggia

corrosa poco a poco dalla presenza del mare

l’importante è che

in un determinato punto

le poesie si somiglino

come certi problemi di fisica

di vecchi quaderni di scuola

*

Boa ideia para um poema

Anotei uma frase num caderno

encontrei-a algum tempo depois

pareceu-me uma boa ideia para um poema

escrevi-o rapidamente

o que é raro

logo depois me ocorreu que a frase anotada no caderno

parecia uma citação

pensei me lembrar que a copiara de um poema

pensei me lembrar que lera o poema numa revista

procurei em todas as revistas

são muitas

não encontrei

pensei: se eu não tivesse me lembrado de que a frase não era minha

ela seria minha?

pensei: se eu me lembrasse onde li todas as frases que escrevi

alguma seria minha?

pensei: é um plágio se ninguém nota?

pensei: devo livrar-me do poema?

pensei: é um poema tão bom assim?

pensei: palavras trocam de pele, tanto roubei por amor, em quantos e quantos

livros já li

histórias sobre nós dois

pensei: nem era um poema tão bom assim

 

Una buona idea per una poesia

M’ero segnata una frase su un quaderno

l’ho ritrovata dopo un po’ di tempo

mi è sembrata una buona idea per una poesia

l’ho scritta in fretta

cosa rara

subito dopo m’è successo che la frase annotata sul quaderno

sembrava una citazione

ho creduto di ricordare che l’avessi copiata da una poesia

ho creduto di ricordare che l’avessi letta su una rivista

ho cercato tutte le riviste

sono molte

non l’ho trovata

ho pensato: se non mi fossi ricordata che la frase non era mia

sarebbe mia?

ho pensato: se ricordassi dove ho letto tutte le frasi che ho scritto

qualcuna sarebbe mia?

ho pensato: è un plagio se nessuno annotasse?

ho pensato: devo cestinare la poesia?

ho pensato: è poi una poesia così bella?

ho pensato: le parole cambiano pelle, tanto ho rubato per amore, in tanti e tanti

libri già letti

storie su noi due

ho pensato: non era poi una poesia così bella

*

Poema de verão

Você está sob a luz

de certos poemas cheios de sol

sua mão faz sombra sobre a página

encobrindo algumas palavras

a palavra menina agora está à sombra

a palavra retângulo

a palavra brinquedo

as outras palavras ficam pairando

no poema como partículas de poeira

brilhando na luz

você gostaria de escrever poemas assim

em que se encontrasse de repente

o esqueleto alvo de um animal pequeno

ou em que um jovem casal dormisse

dentro de uma picape vermelha

ou ao menos em que houvesse uma raposa

vinho de maçã, cadeiras desdobráveis

e onde as cervejas fossem postas para esfriar

dentro de um rio

você gostaria de escrever um poema

em que acontecessem tantas coisas

e as palavras vibrassem um pouco

num acordo tácito

com as coisas vivas

em vez disso você escreve este

 

Poesia d’estate

Sei sotto la luce

di certe poesie piene di sole

la tua mano fa ombra sulla pagina

copre alcune parole

la parola bambina è ora in ombra

la parola rettangolo

la parola giocattolo

le altre parole galleggiano

nella poesia come particelle di polvere

che brillano nella luce

ti piacerebbe scrivere poesie così

dove all’improvviso si trovasse

lo scheletro bianco d’un piccolo animale

o dove una giovane coppia dormisse

dentro un furgoncino rosso

o almeno che ci fosse una volpe

sidro, sedie pieghevoli

e dove le birre si mettessero in freddo

in un fiume

ti piacerebbe scrivere una poesia

dove succedessero tante cose

e le parole vibrassero un poco

in un accordo tacito

come le cose vive

invece di tutto questo

tu scrivi questo

*

Colofão

(Como parece diferente,

leitor,

este livro

agora que já não estás)

 

Colophon

(Come sembra diverso,

lettore,

questo libro

ora che non ci sei più)

*

Contracapa

Um biombo

entre o livro

e o mundo

 

Quarta di copertina

Un paravento

fra il libro

e il mondo

 

[2]

CARTOGRAFIAS

CARTOGRAFIE

 

E então você chegou

como quem deixa cair

sobre um mapa

esquecido aberto sobre a mesa

um pouco de café uma gota de mel

cinzas de cigarro

preenchendo

por descuido

um qualquer lugar até então

deserto

 

E allora sei arrivato

come chi lascia cadere

su una carta geografica

dimenticata aperta sul tavolo

un po’ di caffè una goccia di miele

cenere di sigaretta

riempiendo

per sbaglio

un luogo qualsiasi fino allora

deserto

*

Você fez questão

de dobrar o mapa

de modo que nossas cidades

distantes uma da outra

exatos 1720 km

fizessem subitamente

fronteira

 

Tanto hai fatto

a piegare la carta

così che le nostre città

distanti una dall’altra

giusto 1720 km

all’improvviso

confinassero

*

Combinamos por fim de nos encontrar

na esquina das nossas ruas

que não se cruzam

 

Alla fine abbiamo deciso d’incontrarci

all’angolo delle nostre vie

che non s’incrociano

*

Rasguei um pedaço do mapa

de modo que o Grand Canyon continua

na minha mesa de trabalho

onde o mapa repousa

desde então minha mesa de trabalho

termina subitamente num abismo

 

Ho strappato un pezzo della carta

così che il Grand Canyon continui

sulla mia scrivania

dove la carta riposa

da allora la mia scrivania

finisce precipitosamente

in un abisso

*

Quando enfim

fechássemos o mapa

o mundo se dobraria sobre si mesmo

e o meio-dia

recostado sobre a meia-noite

iluminaria os lugares

mais secretos

 

Quando poi

chiudessimo la carta

il mondo si piegherebbe su se stesso

e il mezzogiorno

appoggiato alla mezzanotte

illuminerebbe i luoghi

più segreti

[3]

O LIVRO DAS SEMELHANÇAS

IL LIBRO DELLE SOMIGLIANZE

 

Podemos atear fogo

à memória da casa

desaprender um idioma

palavra por palavra

podemos esquecer uma cidade

suas ruas pontes armarinhos

armazéns guindastes teleféricos

e se ela tiver um rio

podemos esquecer o rio

mesmo contra a correnteza

mas não podemos proteger com o corpo

um outro corpo do envelhecimento

lançando-nos sobre a lembrança dele

 

Possiamo dare fuoco

alla memoria della casa

dimenticare un idioma

parola per parola

possiamo scordare una città

le sue vie i ponti le mercerie

i magazzini le gru le teleferiche

e se ha un fiume

possiamo scordare il fiume

anche contro la corrente

ma non possiamo proteggere con il corpo

un altro corpo dall’invecchiare

gettandoci sul suo ricordo

*

Aqueles que só conheceram o mar pelo rumor que faz um livro

quando tomba

os que só sabem da floresta o que ensina o farfalhar das páginas

os que veem o mundo como um grande volume ilustrado

no entanto sem legendas sem índices remissivos sem notas explicativas

os que conhecem as cidades apenas pelo nome

e acham que cabem no nome muitas coisas

inclusive certas ruas vazias de madrugada

as casas prestes a serem demolidas

os mesmos talvez que pensam que um corpo pesa tanto

na cama quanto no pensamento

aqueles como nós para quem o desejo

não é prenúncio mas já a aventura

os que se reconhecem na tristeza

das piscinas vazias à beira-mar

 

Chi ha conosciuto il mare solo dal rumore che fa un libro

quando cade

chi della foresta sa solo quel che insegna il mormorio delle pagine

chi vede il mondo come un grande volume illustrato

però senza legende senza indici senza note al testo

chi conosce le città soltanto dal nome

e pensa che nel nome ci stiano molte cose

comprese certe vie vuote all’alba

le case in via di demolizione

è forse lo stesso che pensa che un corpo pesa tanto

nel letto come nel pensiero

chi come noi

che il desiderio

non è l’annuncio ma già l’avventura

chi si riconosce nella tristezza

di piscine vuote in riva al mare

*

É mais difícil esconder um cavalo do que a palavra cavalo

É mais fácil se livrar de um piano do que de um sentimento

Posso tocar o seu corpo mas não o seu nome

É possível terminar uma frase com um beijo assim como é possível

encerrar subitamente uma dança com uma palavra

seria preciso então entender o beijo como um elemento gramatical

acrescentar as palavras entre os movimentos básicos da dança

Quanto do desejo mora

na palavra desejo?

 

È più difficile nascondere un cavallo della parola cavallo

È più facile liberarsi di un piano che di un sentimento

Posso toccare il tuo corpo ma non il tuo nome

È possibile finire una frase con un bacio così come è possibile

chiudere una danza all’improvviso con una parola

sarebbe giusto allora intendere il bacio come un elemento grammaticale

includere le parole fra i movimenti base della danza

Quando del desiderio abita

la parola desiderio?

*

É chegado o afastamento

Pela força do desejo

o longínquo

aproxima-se um instante

até que a proximidade

recua

o próximo distancia-se

e pouco a pouco

avizinha-se a distância

Tão cedo era tarde demais

 

È arrivato l’allontanamento

Per la forza del desiderio

il distante

s’avvicina per un istante

fino a che la vicinanza

retrocede

il prossimo si distanzia

e poco a poco

s’avvicina la distanza

Così presto era troppo tardi

*

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano

quantas cidades para chegar a esta cidade

e quantas mães, todas mortas, até tua mãe

quantas línguas até que a língua fosse esta

e quantos verões até precisamente este verão

este em que nos encontramos neste sítio

exato

à beira de um mar rigorosamente igual

a única coisa que não muda porque muda sempre

quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio

desta praia nesta tarde

quantas palavras até esta palavra, esta

 

Pensa a quanti anni sono stati necessari per giungere a quest’anno

quante città per giungere a questa città

e quante madri, tutte morte, anche tua madre

quante lingue fino a che la lingua fosse questa

e quante estati fino a questa precisa estate

questa in cui ci incontriamo in questo luogo

esatto

in riva a un mare rigorosamente uguale

l’unica cosa che non muta perché muta sempre

quante sere e spiagge vuote sono state necessarie per giungere al vuoto

di questa spiaggia questa sera

quante parole fino a questa parola, questa

*

O que eu levo nos bolsos

Um isqueiro

amarelo

um pouco

de areia

moedas brilhantes

teu nome

anotado

num papel dobrado

minha praia

de bolso

um isqueiro

amarelo

um pouco

de areia

moedas brilhantes

teu nome

anotado

num papel dobrado

meu deserto

de bolso

 

Cosa ho nelle tasche

Un accendino

giallo

un poco

di sabbia

monete brillanti

il tuo nome

annotato

in un foglio piegato

la mia spiaggia

tascabile

un accendino

giallo

un poco

di sabbia

monete brillanti

il tuo nome

annotato

in un foglio piegato

il mio deserto

tascabile

*

Ícaro

Quando Ícaro

caiu

no mar

a sereia que

primeiro

o encontrou

amou nele

o pássaro

ele amou nela

o peixe

Os restos de suas asas

desfeitas

foram dar na praia

entre embalagens

de plástico preservativos

garrafas vazias latas

de cerveja

 

Icaro

Quando Icaro

cadde

in mare

la sirena che

per prima

lo trovò

amò in lui

l’uccello

lui amò in lei

il pesce

Il resto delle sue ali

disfatte

giunsero alla spiaggia

fra imballaggi

di plastica preservativi

bottiglie vuote lattine

di birra

*

O livro das semelhanças

O modo como o seu nome dito muito baixo pode ser confundido com a palavra

xícara

e como ele esquenta de dentro para fora

o modo como a palma das suas mãos se parece com porcelana trincada

o modo como ao levantar-se você lembra um grande felino

mas ao caminhar já não se parece com um animal mas com uma máquina

rápida

e de costas sempre me lembra um navio partindo

embora de frente nunca pareça um navio chegando

o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra

que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas

o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra

que você acabou de inventar

o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva

cartas

que deixamos de enviar produtos em liquidação frases escritas entre

parênteses

papel de presente as toalhas que acabamos de usar e massa de pão

e, mais importante, o parentesco de tudo isso

com o modo como você chama o táxi por telefone

a camisa branca que você acabou de despir sempre me lembra um livro aberto

ao sol

seus sapatos deixados na sala sempre me parecem ensaiar os primeiros passos

de dança

numa versão musical para o cinema do seu livro preferido

o modo como no seu apartamento as coisas sempre parecem estar em casa

e você sempre parece estar de visita

e como você pede licença à penteadeira para chorar

o modo como as nossas conversas me lembram bilhetes interceptados

cardápios de

restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes documentos comidos nas

bordas

por filhotes de cão

o modo como os seus cabelos parecem as linhas de um livro lido por uma

criança

que ainda não sabe ler

ou apenas desenhos que alguém por equívoco tomasse por escrita

o modo como os seus sonhos parecem os pensamentos de pessoas que

sobreviveram

a um desastre de avião

parecem as lembranças de um ex-boxeador apaixonado

parecem os projetos de futuro de crianças muito pequenas

parecem os contos de fadas preferidos de ditadores sanguinários

os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de armar as primeiras viagens

sem

os pais os países coloridos de vermelho no mapa-múndi pessoas que sempre

esquecem

as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a disposição para usar a

violência

o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém

a não ser talvez com certas coisas

similares a nada

 

Il libro delle somiglianze

Il modo in cui il tuo nome detto a voce bassa può essere confuso con la parola

tazza

e come riscalda da dentro a fuori

il modo in cui il palmo della tua mano somiglia alla porcellana screpolata

il modo in cui quando ti alzi ricordi un grande felino

ma se cammini non sembri più un animale ma una macchina

rapida

e di spalle mi ricordi sempre una nave che parte

eppure davanti non sembri mai una nave che arriva

il modo in cui detta da te la parola “sì” sembra una parola

che ha lo stesso significato in tutte le lingue

il modo in cui detta da te la parola “no” sembra una parola

che hai appena inventato

la somiglianza fra le fotografie strappate i giocattoli dimenticati nella pioggia

lettere

che non abbiamo spedito prodotti in liquidazione frasi scritte fra

parentesi

carta da regalo le tovaglie che appena usate e l’impasto del pane

e, più importante, la somiglianza di tutto ciò

con il modo in cui chiami il taxi al telefono

la camicia bianca che ti sei appena tolta mi ricorda sempre un libro aperto

al sole

le tue scarpe lasciate in sala mi sembrano sempre provare i primi passi

di danza

in un adattamento musicale per il cinema del tuo libro preferito

il modo in cui nel tuo appartamento le cose sembrano sempre stare a casa

e tu sembri sempre essere in visita

e come chiedi permesso alla specchiera per piangere

il modo in cui le nostre conversazioni mi ricordano i bigliettini intercettati

menù di

ristoranti esotici etichette di bevande forti documenti smangiati ai

bordi

dai cuccioli di cane

il modo in cui i tuoi capelli sembrano le linee di un libro letto da un

bambino

che ancora non sa leggere

o solo disegni che qualcuno per sbaglio scambia per parole

il modo in cui i tuoi sogni sembrano i pensieri di chi

è sopravvissuto

a un disastro aereo

sembrano i ricordi di un ex pugile innamorato

sembrano i progetti per il futuro di bambini molto piccoli

sembrano le fiabe preferite di dittatori sanguinari

la somiglianza fra le guerre intime il gioco d’immaginare i primi viaggi

senza

i genitori i paesi colorati di rosso sul mappamondo le persone che sempre

dimenticano

le chiavi le prime parole dette la mattina e l’inclinazione alla

violenza

il modo in cui nonostante tutto ciò tu non somigli a nessuno

se non forse a certe cose

che a niente somigliano

da

DA ARTE DAS ARMADILHAS

DELL’ARTE DELLE TRAPPOLE

Companhia das Letras, 2011

 

 

 

[1]

INTERIORES

INTERNI

 

Açucareiro

De amargo

basta

o amor

Agridoce,

ela disse

Mas a mim

pareceu

amargo

 

Zuccheriera

Di amaro

basta

l’amore

Agrodolce,

disse lei

Ma a me

sembrò

amaro

*

Fruteira

Quem lembrou de pôr sobre a mesa

essas doces evidências

da morte?

 

Fruttiera

Chi s’è ricordato di mettere sul tavolo

quelle dolci testimonianze

della morte?

*

Estante

Dentro da garrafa

o navio

acaba de partir

 

Scaffale

Dentro la bottiglia

la nave

è appena partita

*

Cortina

Entre o fora e o dentro

lês

o vento

 

Tenda

Tra il fuori e il dentro

leggi

il vento

*

Capacho

Home

sweet

rua

 

Zerbino

Home

sweet

strada

*

Torneira

Quem abre a torneira

convida a entrar

o lago

o rio

o mar

 

Rubinetto

Chi apre il rubinetto

invita a entrare

il lago

il fiume

il mare

 

[2]

A ARTE DAS ARMADILHAS

L’ARTE DELLE TRAPPOLE

A linguagem

sem cessar

arma

armadilhas

O amor

sem cessar

arma

armadilhas

Resta saber

se as armadilhas

são as mesmas

Mas como sabê-lo

se somos nós

as presas?

 

Il linguaggio

senza sosta

tende

trappole

L’amore

senza sosta

tende

trappole

Resta da sapere

se le trappole

siano le stesse

Ma come saperlo

se siamo noi

le prede?

*

A descoberta do mundo

Procuro alcançar-te

com palavras

com palavras

conhecer-te

como quem

com uma lanterna e um mapa

crê empreender

a descoberta do mundo

levanto-me

estou sozinha no escuro

com os dois pés

no cimento frio

(onde estás

no que escrevi?)

 

La scoperta del mondo

Provo a raggiungerti

con le parole

con le parole

conoscerti

come chi

con una pila e una cartina

crede d’intraprendere

la scoperta del mondo

mi alzo

sono sola nell’oscuro

con i due piedi

sul cemento freddo

(dove sei

in ciò che ho scritto?)

*

Caçada

E o que é o amor

senão a pressa

da presa

em prender-se?

A pressa

da presa

em

perder-se

 

A caccia

E cosa è l’amore

se non la fretta

della preda

di prendersi?

La fretta

della preda

di

perdersi

*

Queda

As palavras

faltam

quando mais

se precisa

delas

são apenas

a sombrinha

do equilibrista

ajudam

talvez

mas não salvam

faltam

quando mais

se precisa delas

se você cair

de uma grande altura

por mais bonita

que seja a sua sombrinha

não conte com ela

para amortecer

a queda

 

Caduta

Le parole

mancano

quando più

se ne ha

bisogno

sono solo

l’ombra minuscola

dell’equilibrista

aiutano

forse

ma non salvano

mancano

quando più

ne hai bisogno

se cadi

da molto in alto

per quanto bella

sia quell’ombra

non contarci

per smorzare

la caduta

*

Penélope

Teu nome

espaço

meu nome

espera

teu nome

astúcias

meu nome

agulhas

teu nome

nau

meu nome

noite

teu nome

ninguém

meu nome

também

num só gesto

reconhecer-te

e perder-te

 

Penelope

Il tuo nome

spazio

il mio nome

aspetto

il tuo nome

arguzia

il mio nome

ago

il tuo nome

nave

il mio nome

notte

il tuo nome

nessuno

il mio nome

lo stesso

in un solo gesto

riconoscerti

e perderti

*

Belo Horizonte

[1]

Um dia vou aprender a partir

vou partir

como quem fica

[2]

Um dia vou aprender a ficar

vou ficar

como quem parte

 

Belo Horizonte

[1]

Un giorno imparerò a partire

partirò

come chi resta

[2]

Un giorno imparerò a restare

resterò

come chi parte

*

Ícaro

Nesta altura

dos acontecimentos

(pensou)

só espero poder

tocar o sol

antes

do solo

 

Icaro

A quest’altezza

degli avvenimenti

(pensò)

solo spero di potere

toccare il sole

prima

del suolo

*

Ana Martins Marques è nata nel 1977 a Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasile), dove vive. Pubblicazioni: “La vita sottomarina” (Scriptum, 2009); “Dell’arte delle trappole” (Companhia das Letras, 2011) che ha ricevuto il premio “Biblioteca Nacional” nel 2012; “Il libro delle somiglianze” (Companhia das Letras, 2015). Ha vinto due volte il “Premio Città di Belo Horizonte” di letteratura.

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2 commenti su “Il libro delle somiglianze, Ana Martins Marques

  1. Evangelia Polymou
    30/06/2018

    L’ha ribloggato su evangelia polymou.

    Mi piace

  2. vengodalmare
    03/07/2018

    Queste poesie mi piacciono molto. Se non sbaglio avevo già letto qualcosa di suo qui, o in un altro blog non ricordo, già comunque trovai la voce del poeta fresca e profonda; ora mi sembra perfetta sia nei componimenti brevi, raggelanti spesso, che nel lungo poema. Le sue parole sembrano tante bolle di sapone che all’aria e al vento si colorano di mille sfaccettature, in ognuna un pezzo di mondo. Belle proprio. Grazie per la traduzione.
    (somiglianza per somiglianza.. direi Borges)

    Piace a 1 persona

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Questa voce è stata pubblicata il 20/06/2018 da in Senza categoria.
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