perìgeion

un atto di poesia

Ana Martins Marques, Il libro delle somiglianze

dama

traduzioni di Massimiliano Damaggio

ANA MARTINS MARQUES
da
O LIVRO DAS SEMELHANÇAS
IL LIBRO DELLE SOMIGLIANZE

Companhia das Letras, 2015

[1]

LIVRO

LIBRO

Capa

Um biombo
entre o mundo
e o livro

Copertina

Un paravento
fra il mondo
e il libro

***

Nome do autor

Impresso
como parece estranho
o mesmo nome
com que te chamam

Nome dell’autore

Stampato
come sembra strano
lo stesso nome
con cui ti chiamano

***

Dedicatória

Ainda que não te fossem dedicadas
todas as palavras nos livros
pareciam escritas para você

Dedica

Anche non ti fossero dedicate
tutte le parole nei libri
per te sembrano scritte

***

Primeiro poema

O primeiro verso é o mais difícil
o leitor está à porta
não sabe ainda se entra
ou só espia
se se lança ao livro
ou finalmente encara
o dia

o dia: contas a pagar
correspondência atrasada
congestionamentos
xícaras sujas

aqui ao menos não encontrarás,
leitor,
xícaras sujas

Prima poesia

Il primo verso è il più difficile
il lettore è alla porta
ancora non sa se entrare
o solo sbirciare
se avventurarsi nel libro
o infine affrontare
il giorno

il giorno: conti da pagare
corrispondenza in ritardo
congestionamenti
tazze sporche

qui almeno non troverai,
lettore,
le tazze sporche

***

Acidente

Escrevi este poema no último dia
depois disso não nos vimos mais
a princípio trocamos telefonemas
em que você sempre parecia estar prestes a perder o trem
enquanto eu sempre parecia ter acabado de perdê-lo
escrevi este poema depois do primeiro telefonema
você falava sobre vistos e repartições
e sobre como para conseguir um documento sempre é necessário um outro
que no entanto só se pode obter de posse daquele
eu falava sobre as noites perdidas na companhia de alguém
que nunca era você
depois aos poucos você deixou de ligar
escrevi este poema no segundo domingo
em que você de novo não telefonou
ao redor do poema como em volta de um acidente
juntou-se muita gente
para ver o que era

Incidente

Ho scritto questa poesia l’ultimo giorno
dopo non ci siamo visti più
all’inizio ci siamo scambiati telefonate
e sembrava sempre che tu stessi per perdere il treno
mentre sembrava sempre che io l’avessi appena perso
ho scritto questa poesia dopo la prima telefonata
parlavi di visti e di uffici
e di come per avere un documento ne è sempre necessario un altro
che si può avere solo se si ha già quell’altro
io parlavo di notti perdute in compagnia di qualcuno
che non eri mai tu
poi poco a poco hai smesso di chiamare
ho scritto questa poesia la seconda domenica
quando tu di nuovo non hai telefonato
intorno alla poesia come intorno a un incidente
s’era raccolta molta gente
per vedere che era

***

Tradução

Este poema
em outra língua
seria outro poema
um relógio atrasado
que marca a hora certa
de algum outro lugar
uma criança que inventa
uma língua só para falar
com outra criança
uma casa de montanha
reconstruída sobre a praia
corroída pouco a pouco pela presença do mar
o importante é que
num determinado ponto
os poemas fiquem emparelhados
como em certos problemas de física
de velhos livros escolares

Traduzione

Questa poesia
in un’altra lingua
sarebbe un’altra poesia
un orologio indietro
che segna l’ora giusta
di qualche altro luogo
un bambino che inventa
una lingua solo per parlare
con un altro bambino
una casa di montagna
ricostruita sulla spiaggia
corrosa poco a poco dalla presenza del mare
l’importante è che
in un determinato punto
le poesie si somiglino
come certi problemi di fisica

di vecchi quaderni di scuola

***

Boa ideia para um poema

Anotei uma frase num caderno
encontrei-a algum tempo depois
pareceu-me uma boa ideia para um poema
escrevi-o rapidamente
o que é raro
logo depois me ocorreu que a frase anotada no caderno
parecia uma citação
pensei me lembrar que a copiara de um poema
pensei me lembrar que lera o poema numa revista
procurei em todas as revistas
são muitas
não encontrei
pensei: se eu não tivesse me lembrado de que a frase não era minha
ela seria minha?
pensei: se eu me lembrasse onde li todas as frases que escrevi
alguma seria minha?
pensei: é um plágio se ninguém nota?
pensei: devo livrar-me do poema?
pensei: é um poema tão bom assim?
pensei: palavras trocam de pele, tanto roubei por amor, em quantos e quantos
livros já li
histórias sobre nós dois
pensei: nem era um poema tão bom assim

Una buona idea per una poesia

M’ero segnata una frase su un quaderno
l’ho ritrovata dopo un po’ di tempo
mi è sembrata una buona idea per una poesia
l’ho scritta in fretta
cosa rara
subito dopo m’è successo che la frase annotata sul quaderno
sembrava una citazione
ho creduto di ricordare che l’avessi copiata da una poesia
ho creduto di ricordare che l’avessi letta su una rivista
ho cercato tutte le riviste
sono molte
non l’ho trovata
ho pensato: se non mi fossi ricordata che la frase non era mia
sarebbe mia?
ho pensato: se ricordassi dove ho letto tutte le frasi che ho scritto
qualcuna sarebbe mia?
ho pensato: è un plagio se nessuno annotasse?
ho pensato: devo cestinare la poesia?
ho pensato: è poi una poesia così bella?
ho pensato: le parole cambiano pelle, tanto ho rubato per amore, in tanti e tanti
libri già letti
storie su noi due
ho pensato: non era poi una poesia così bella

***

Poema de verão

Você está sob a luz
de certos poemas cheios de sol
sua mão faz sombra sobre a página
encobrindo algumas palavras
a palavra menina agora está à sombra
a palavra retângulo
a palavra brinquedo
as outras palavras ficam pairando
no poema como partículas de poeira
brilhando na luz
você gostaria de escrever poemas assim
em que se encontrasse de repente
o esqueleto alvo de um animal pequeno
ou em que um jovem casal dormisse
dentro de uma picape vermelha
ou ao menos em que houvesse uma raposa
vinho de maçã, cadeiras desdobráveis
e onde as cervejas fossem postas para esfriar
dentro de um rio
você gostaria de escrever um poema
em que acontecessem tantas coisas
e as palavras vibrassem um pouco
num acordo tácito
com as coisas vivas
em vez disso você escreve este

Poesia d’estate

Sei sotto la luce
di certe poesie piene di sole
la tua mano fa ombra sulla pagina
copre alcune parole
la parola bambina è ora in ombra
la parola rettangolo
la parola giocattolo
le altre parole galleggiano
nella poesia come particelle di polvere
che brillano nella luce
ti piacerebbe scrivere poesie così
dove all’improvviso si trovasse
lo scheletro bianco d’un piccolo animale
o dove una giovane coppia dormisse
dentro un furgoncino rosso
o almeno che ci fosse una volpe
sidro, sedie pieghevoli
e dove le birre si mettessero in freddo
in un fiume
ti piacerebbe scrivere una poesia
dove succedessero tante cose
e le parole vibrassero un poco
in un accordo tacito
come le cose vive
invece di tutto questo
tu scrivi questo

***

Colofão

(Como parece diferente,
leitor,
este livro
agora que já não estás)

Colophon

(Come sembra diverso,
lettore,
questo libro
ora che non ci sei più)

***

Contracapa

Um biombo
entre o livro
e o mundo

Quarta di copertina

Un paravento
fra il libro
e il mondo

[2]

CARTOGRAFIAS
CARTOGRAFIE

E então você chegou
como quem deixa cair
sobre um mapa
esquecido aberto sobre a mesa
um pouco de café uma gota de mel
cinzas de cigarro
preenchendo
por descuido
um qualquer lugar até então
deserto

E allora sei arrivato
come chi lascia cadere
su una carta geografica
dimenticata aperta sul tavolo
un po’ di caffè una goccia di miele
cenere di sigaretta
riempiendo
per sbaglio
un luogo qualsiasi fino allora
deserto

***

Você fez questão
de dobrar o mapa
de modo que nossas cidades
distantes uma da outra
exatos 1720 km
fizessem subitamente
fronteira

Tanto hai fatto
a piegare la carta
così che le nostre città
distanti una dall’altra
giusto 1720 km
all’improvviso
confinassero

***

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam

Alla fine abbiamo deciso d’incontrarci
all’angolo delle nostre vie
che non s’incrociano

***

Rasguei um pedaço do mapa
de modo que o Grand Canyon continua
na minha mesa de trabalho
onde o mapa repousa
desde então minha mesa de trabalho
termina subitamente num abismo

Ho strappato un pezzo della carta
così che il Grand Canyon continui
sulla mia scrivania
dove la carta riposa
da allora la mia scrivania
finisce precipitosamente
in un abisso

***

Quando enfim
fechássemos o mapa
o mundo se dobraria sobre si mesmo
e o meio-dia
recostado sobre a meia-noite
iluminaria os lugares
mais secretos

Quando poi
chiudessimo la carta
il mondo si piegherebbe su se stesso
e il mezzogiorno
appoggiato sulla mezzanotte
illuminerebbe i luoghi
più segreti

[3]

O LIVRO DAS SEMELHANÇAS
IL LIBRO DELLE SOMIGLIANZE

Podemos atear fogo
à memória da casa
desaprender um idioma
palavra por palavra
podemos esquecer uma cidade
suas ruas pontes armarinhos
armazéns guindastes teleféricos
e se ela tiver um rio
podemos esquecer o rio
mesmo contra a correnteza
mas não podemos proteger com o corpo
um outro corpo do envelhecimento
lançando-nos sobre a lembrança dele

Possiamo dare fuoco
alla memoria della casa
dimenticare un idioma
parola per parola
possiamo scordare una città
le sue vie i ponti le mercerie
i magazzini le gru le teleferiche
e se ha un fiume
possiamo scordare il fiume
anche contro la corrente
ma non possiamo proteggere con il corpo
un altro corpo dall’invecchiare
gettandoci sul suo ricordo

***

Aqueles que só conheceram o mar pelo rumor que faz um livro
quando tomba
os que só sabem da floresta o que ensina o farfalhar das páginas
os que veem o mundo como um grande volume ilustrado
no entanto sem legendas sem índices remissivos sem notas explicativas
os que conhecem as cidades apenas pelo nome
e acham que cabem no nome muitas coisas
inclusive certas ruas vazias de madrugada
as casas prestes a serem demolidas
os mesmos talvez que pensam que um corpo pesa tanto
na cama quanto no pensamento
aqueles como nós para quem o desejo
não é prenúncio mas já a aventura
os que se reconhecem na tristeza
das piscinas vazias à beira-mar

Chi ha conosciuto il mare solo dal rumore che fa un libro
quando cade
chi della foresta sa solo quel che insegna il mormorio delle pagine
chi vede il mondo come un grande volume illustrato
però senza legende senza indici senza note al testo
chi conosce le città soltanto dal nome
e pensa che nel nome ci stiano molte cose
comprese certe vie vuote all’alba
le case in via di demolizione
è forse lo stesso che pensa che un corpo pesa tanto
nel letto come nel pensiero
chi come noi
che il desiderio
non è l’annuncio ma già l’avventura
chi si riconosce nella tristezza
di piscine vuote in riva al mare

***

É mais difícil esconder um cavalo do que a palavra cavalo
É mais fácil se livrar de um piano do que de um sentimento
Posso tocar o seu corpo mas não o seu nome
É possível terminar uma frase com um beijo assim como é possível
encerrar subitamente uma dança com uma palavra
seria preciso então entender o beijo como um elemento gramatical
acrescentar as palavras entre os movimentos básicos da dança
Quanto do desejo mora
na palavra desejo?

È più difficile nascondere un cavallo della parola cavallo
È più facile liberarsi di un piano che di un sentimento
Posso toccare il tuo corpo ma non il tuo nome
È possibile finire una frase con un bacio così come è possibile
chiudere una danza all’improvviso con una parola
sarebbe giusto allora intendere il bacio come un elemento grammaticale
includere le parole fra i movimenti base della danza
Quando desiderio abita
la parola desiderio?

***

É chegado o afastamento
Pela força do desejo
o longínquo
aproxima-se um instante
até que a proximidade
recua
o próximo distancia-se
e pouco a pouco
avizinha-se a distância
Tão cedo era tarde demais

È arrivato l’allontanamento
Per la forza del desiderio
il distante
s’avvicina per un istante
fino a che la vicinanza
retrocede
il prossimo si distanzia
e poco a poco
s’avvicina la distanza
Così presto era troppo tardi

***

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegar a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta

Pensa a quanti anni sono stati necessari per giungere a quest’anno
quante città per giungere a questa città
e quante madri, tutte morte, anche tua madre
quante lingue fino a che la lingua fosse questa
e quante estati fino a questa precisa estate
questa in cui ci incontriamo in questo luogo
esatto
in riva a un mare rigorosamente uguale
l’unica cosa che non muta perché muta semprequante sere e spiagge vuote sono state necessarie per giungere al vuoto
di questa spiaggia questa sera
quante parole fino a questa parola, questa

***

O que eu levo nos bolsos

Um isqueiro
amarelo
um pouco
de areia
moedas brilhantes
teu nome
anotado
num papel dobrado
minha praia
de bolso
um isqueiro
amarelo
um pouco
de areia
moedas brilhantes
teu nome
anotado
num papel dobrado
meu deserto
de bolso

Che ho in tasca

Un accendino
giallo
un poco
di sabbia
monete brillanti
il tuo nome
annotato
in un foglio piegato
la mia spiaggia
tascabile
un accendino
giallo
un poco
di sabbia
monete brillanti
il tuo nome
annotato
in un foglio piegato
il mio deserto
tascabile

***

Ícaro

Quando Ícaro
caiu
no mar
a sereia que
primeiro
o encontrou
amou nele
o pássaro
ele amou nela
o peixe

Os restos de suas asas
desfeitas
foram dar na praia
entre embalagens
de plástico preservativos
garrafas vazias latas
de cerveja

Icaro

Quando Icaro
cadde
in mare
la sirena che
per prima
lo trovò
amò in lui
l’uccello
lui amò in lei
il pesce

Il resto delle sue ali
disfatte
giunsero alla spiaggia
fra imballaggi
di plastica preservativi
bottiglie vuote lattine
di birra

***

O livro das semelhanças

O modo como o seu nome dito muito baixo pode ser confundido com a palavra xícara
e como ele esquenta de dentro para fora
o modo como a palma das suas mãos se parece com porcelana trincada
o modo como ao levantar-se você lembra um grande felino
mas ao caminhar já não se parece com um animal mas com uma máquina rápida
e de costas sempre me lembra um navio partindo
embora de frente nunca pareça um navio chegando
o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra
que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas
o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra
que você acabou de inventar
o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva cartas
que deixamos de enviar produtos em liquidação frases escritas entre parênteses
papel de presente as toalhas que acabamos de usar e massa de pão
e, mais importante, o parentesco de tudo isso
com o modo como você chama o táxi por telefone
a camisa branca que você acabou de despir sempre me lembra um livro aberto ao sol
seus sapatos deixados na sala sempre me parecem ensaiar os primeiros passos de dança
numa versão musical para o cinema do seu livro preferido
o modo como no seu apartamento as coisas sempre parecem estar em casa
e você sempre parece estar de visita
e como você pede licença à penteadeira para chorar
o modo como as nossas conversas me lembram bilhetes interceptados
cardápios de restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes documentos comidos nas bordas por filhotes de cão
o modo como os seus cabelos parecem as linhas de um livro lido por uma criança
que ainda não sabe ler
ou apenas desenhos que alguém por equívoco tomasse por escrita
o modo como os seus sonhos parecem os pensamentos de pessoas que sobreviveram a um desastre de avião
parecem as lembranças de um ex-boxeador apaixonado
parecem os projetos de futuro de crianças muito pequenas
parecem os contos de fadas preferidos de ditadores sanguinários
os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de armar as primeiras viagens
sem os pais os países coloridos de vermelho no mapa-múndi pessoas que sempre esquecem
as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a disposição para usar a violência
o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém
a não ser talvez com certas coisas similares a nada

Il libro delle somiglianze

Il modo in cui il tuo nome detto a voce bassa può essere confuso con la parola tazza
e come riscalda da dentro a fuori
il modo in cui il palmo della tua mano somiglia alla porcellana screpolata
il modo in cui quando ti alzi ricordi un grande felino
ma se cammini non sembri più un animale ma una macchina rapida
e di spalle mi ricordi sempre una nave che parte
eppure davanti non sembri mai una nave che arriva
il modo in cui detta da te la parola “sì” sembra una parola
che ha lo stesso significato in tutte le lingue
il modo in cui detta da te la parola “no” sembra una parola
che hai appena inventato
la somiglianza fra le fotografie strappate i giocattoli dimenticati nella pioggia
lettere che non abbiamo spedito prodotti in liquidazione frasi scritte fra parentesi
carta da regalo le tovaglie che appena usate e l’impasto del pane
e, più importante, la somiglianza di tutto ciò
con il modo in cui chiami il taxi al telefono
la camicia bianca che ti sei appena tolta mi ricorda sempre un libro aperto al sole
le tue scarpe lasciate in sala mi sembrano sempre provare i primi passi di danza
in un adattamento musicale per il cinema del tuo libro preferito
il modo in cui nel tuo appartamento le cose sembrano sempre stare a casa
e tu sembri sempre essere in visita
e come chiedi permesso alla specchiera per piangere
il modo in cui le nostre conversazioni mi ricordano i bigliettini intercettati
menù di ristoranti esotici etichette di bevande forti documenti smangiati ai bordi dai cuccioli di cane
il modo in cui i tuoi capelli sembrano le linee di un libro letto da un bambino che ancora non sa leggere
o solo disegni che qualcuno per sbaglio scambia per parole
il modo in cui i tuoi sogni sembrano i pensieri di chi è sopravvissuto a un disastro aereo
sembrano i ricordi di un ex pugile innamorato
sembrano i progetti per il futuro di bambini molto piccoli
sembrano le fiabe preferite di dittatori sanguinari
la somiglianza fra le guerre intime il gioco d’immaginare i primi viaggi
senza i genitori i paesi colorati di rosso sul mappamondo le persone che sempre
dimenticano le chiavi le prime parole dette la mattina e l’inclinazione alla violenza
il modo in cui nonostante tutto ciò tu non somigli a nessuno
se non forse a certe cose che non somigliano a niente

DA ARTE DAS ARMADILHAS
DELL’ARTE DELLE TRAPPOLE

Companhia das Letras, 2011

[1]

INTERIORES
INTERNI

Açucareiro

De amargo
basta
o amor
Agridoce,
ela disse
Mas a mim
pareceu
amargo

Zuccheriera

Di amaro
basta
l’amore
Agrodolce,
disse lei
Ma a me
sembrò
amaro

***

Fruteira

Quem lembrou de pôr sobre a mesa

essas doces evidências

da morte?

Fruttiera

Chi s’è ricordato di mettere sul tavolo
quelle dolci testimonianze
della morte?

***

Estante

Dentro da garrafa
o navio
acaba de partir

Scaffale

Dentro la bottiglia
la nave
è appena partita

***

Cortina

Entre o fora e o dentro
lês
o vento

Tenda

Tra il fuori e il dentro
leggi
il vento

***

Capacho

Home
sweet
rua

Zerbino

Home
sweet
via

***

Torneira

Quem abre a torneira
convida a entrar
o lago
o rio
o mar

Rubinetto

Chi apre il rubinetto
invita a entrare
il lago
il fiume
il mare

[2]

A ARTE DAS ARMADILHAS
L’ARTE DELLE TRAPPOLE

A linguagem
sem cessar
arma
armadilhas

O amor
sem cessar
arma
armadilhas

Resta saber
se as armadilhas
são as mesmas

Mas como sabê-lo
se somos nós
as presas?

Il linguaggio
senza sosta
tende
trappole

L’amore
senza sosta
tende
trappole

Resta da sapere
se le trappole
siano le stesse

Ma come saperlo
se siamo noi
le prede?

***

A descoberta do mundo

Procuro alcançar-te
com palavras
com palavras
conhecer-te
como quem
com uma lanterna e um mapa
crê empreender
a descoberta do mundo
levanto-me
estou sozinha no escuro
com os dois pés
no cimento frio
(onde estás
no que escrevi?)

La scoperta del mondo

Provo a raggiungerti
con le parole
con le parole
conoscerti
come chi
con una pila e una cartina
crede d’intraprendere
la scoperta del mondo
mi alzo
sono sola nell’oscuro
con i due piedi
sul cemento freddo
(dove sei
in ciò che ho scritto?)

***

Caçada

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?
A pressa
da presa
em
perder-se

A caccia

E cosa è l’amore
se non la fretta
della preda
di prendersi?
La fretta
della preda
di
perdersi

***

Queda

As palavras
faltam
quando mais
se precisa
delas
são apenas
a sombrinha
do equilibrista
ajudam
talvez
mas não salvam
faltam
quando mais
se precisa delas
se você cair
de uma grande altura
por mais bonita
que seja a sua sombrinha
não conte com ela
para amortecer
a queda

Caduta

Le parole
mancano
quando più
se ne ha
bisogno
sono solo
l’ombra minuscola
dell’equilibrista
aiutano
forse
ma non salvano
mancano
quando più
ne hai bisogno
se cadi
da molto in alto
per quanto bella
sia quell’ombra
non contarci
per smorzare
la caduta

***

Penélope

Teu nome
espaço
meu nome
espera
teu nome
astúcias
meu nome
agulhas
teu nome
nau
meu nome
noite
teu nome
ninguém
meu nome
também
num só gesto
reconhecer-te
e perder-te

Penelope

Il tuo nome
spazio
il mio nome
aspetto
il tuo nome
arguzia
il mio nome
ago
il tuo nome
nave
il mio nome
notte
il tuo nome
nessuno
il mio nome
lo stesso
in un solo gesto
riconoscerti
e perderti

***

Belo Horizonte

[1]

Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica

[2]

Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte

Belo Horizonte

[1]

Un giorno imparerò a partire
partirò
come chi resta

[2]

Un giorno imparerò a restare
resterò
come chi parte

***

Ícaro

Nesta altura
dos acontecimentos
(pensou)
só espero poder
tocar o sol
antes
do solo

Icaro

A quest’altezza
degli avvenimenti
(pensò)
solo spero di potere
toccare il sole
prima
del suolo


Ana Martins Marques è nata nel 1977 a Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasile), dove vive. Pubblicazioni: “La vita sottomarina” (Scriptum, 2009); “Dell’arte delle trappole” (Companhia das Letras, 2011) che ha ricevuto il premio “Biblioteca Nacional” nel 2012; “Il libro delle somiglianze” (Companhia das Letras, 2015). Ha vinto due volte il “Premio Città di Belo Horizonte” di letteratura. Non è abituata a usare la parole “grazie”.

Informazioni su massimiliano 最後花 damaggio

2 commenti su “Ana Martins Marques, Il libro delle somiglianze

  1. Evangelia Polymou
    30/06/2018

    L’ha ribloggato su evangelia polymou.

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  2. vengodalmare
    03/07/2018

    Queste poesie mi piacciono molto. Se non sbaglio avevo già letto qualcosa di suo qui, o in un altro blog non ricordo, già comunque trovai la voce del poeta fresca e profonda; ora mi sembra perfetta sia nei componimenti brevi, raggelanti spesso, che nel lungo poema. Le sue parole sembrano tante bolle di sapone che all’aria e al vento si colorano di mille sfaccettature, in ognuna un pezzo di mondo. Belle proprio. Grazie per la traduzione.
    (somiglianza per somiglianza.. direi Borges)

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